A narrativa ética de Primo Levi

ImagemPrimo Levi nasceu na cidade italiana de Turim em 1919, descendente de uma família judia, formou-se em química no ano de 1941, ano em que já vigoravam leis de segregação fascistas que restringia o acesso de judeus à formação acadêmica. O então jovem químico Levi se alia ao movimento de resistência italiano contra o regime ditatorial sem nenhum treinamento militar, o que favoreceu sua prisão em 13 de dezembro de 1943, aos 24 anos.

Em 11 de fevereiro de 1944 foi transferido para o Campo de trabalho Auschwitz-Birkenau, onde no momento de sua chegada encontrava-se cerca de dez mil prisioneiros. Grande parte empenhada na instalação de uma fábrica de borracha conhecida por Buna, cujo nome dava nome ao Campo.

Sua passagem de onze meses em Auschwitz deu origem ao livro “É isto um homem?” (Se questo é um uomo?) originalmente publicado em 1947, além de uma série de artigos. Alguns anos depois escreveu “A Trégua” (1963) que narra seu retorno para casa durante o pós-guerra.

Já em Turim Levi é empregado numa indústria como químico, onde permanece até sua aposentadoria em 1977, passando a escrever em tempo integral. Entre outras publicações, escreve em 1986 “Os afogados e os sobreviventes” formando assim o que se conhece como trilogia de Auschwitz.

Levi morreu em 11 de abril de 1987, em circunstancias não esclarecidas, depois de cair no vão da escada em sua casa. Acredita-se na hipótese não totalmente confirmada de suicídio.

Narrar a própria história

A possibilidade de contar a própria história de vida sempre foi destinada a figuras notáveis

Portão de Auschwitz-birkenau, onde se lê: "O trabalho liberta"

Portão de Auschwitz-birkenau, onde se lê: “O trabalho liberta”

da humanidade, cujas ações em vida variavam da exemplaridade à excepcionalidade. Narrar o próprio destino ou o destino de uma pessoa significava ao mesmo tempo ilustrar o caráter particularíssimo de uma existência, e também uma contribuição ao conhecimento do homem em geral.

Contudo, a narrativa de Levi aponta para outra direção. O fato de ter sobrevivido ao campo de concentração de Auschwitz não é obra de virtudes particulares que possa servir de exemplo edificante à humanidade; antes seu testemunho se constitui a partir de uma série de acidentes, fruto de uma inusitada sucessão de acasos. Sua sobrevivência só se tornou possível a partir da total inversão de idéias bases que animam a racionalidade moderna. Para sobreviver era preciso evitar o trabalho, esconder os próprios pensamentos, roubar, mentir… pois disso dependia a sobrevivência no Campo.

Por isso Levi irá dizer em “É isto um homem?” que os sobreviventes não eram os melhores, os predestinados ao bem, os portadores de uma mensagem, pois tudo o que vivera demonstrava exatamente o contrário. Sobreviveram quase sempre os piores, os egoístas, os violentos, os insensíveis, os colaboradores do sistema nazista, os espiões. Como diz, sobreviveram os piores, isto é, os mais aptos; os melhores estão todos mortos.

No entanto, a qualidade de sobrevivente não é indício de qualquer implicação moral, para ele seria fácil deduzir de Auschwitz que o homem seja fundamentalmente brutal, egoísta e estúpido em seu comportamento quando toda superestrutura civil é abolida. Diz que prefere pensar que, neste ponto, não se pode chegar a nenhuma conclusão senão que, diante de uma necessidade e de um desconforto físico extremos, muitos hábitos e instintos sociais são reduzidos ao silêncio.

É por isso que o relato de Levi não se presta a mais um documento de acusação contra os alemães responsáveis pelo extermínio, tampouco serve-se da descrição de cenas de puro horror, repudio ou abjeção. Mais que um convite é uma ordem de convocação ao conhecimento, a proclamação de uma co-responsabilidade e a conseqüente condenação da covardia. Várias vezes Levi nos dá a impressão que esta não é a sua história ou o seu testemunho, mas antes o verdadeiro testemunho de terceiros, daqueles muitos que não voltaram pra casa, daqueles que alcançaram um ponto tal de prostração física e psíquica que viver ou morrer não tinha diferença alguma.

Do que é feito o homem?

Prisioneiros no campo de Birkenau

Prisioneiros no campo de Birkenau

Do que é feito um homem? Ou mais precisamente: que substância constitui sua humanidade? Essa é uma preocupação constante na narrativa de Levi. Para ilustrar tal questão Levi nos conta que após muitos meses de privação, no final de 1944 quando enfim é transferido para trabalhar no laboratório do Campo passa a dispor de materiais de trabalho que se prestam a troca com outros prisioneiros e assim assegurar alguns privilégios (se assim se pode dizer), juntamente com seu amigo Alberto passa a fazer parte da “aristocracia dos que se viram como pode”, isto é, adquire a admiração dos menos desprovidos e algum respeito dos hábeis, algo de que se possa orgulhar, sentimento este que dura até presenciarem o enforcamento público do último rebelde. Aquele que contra todas as adversidades conserva uma lucidez e vigor capaz de sabotar uma das máquinas de execução nazista. Nesse momento qualquer vantagem conseguida, fruto da tenacidade e criatividade proveniente da preservação de resquícios de sua humanidade agora torna-se motivo de vergonha. Levi parece se perguntar: Sobrevivência sim. Mas a que preço?

Espaços contemporâneos de exclusão

A importância de Levi e sua escrita memorialística consiste no testemunho vivo da aniquilação da idéia de qualquer possibilidade de realização do projeto humanista. Se recuarmos alguns passos na história veremos que o homem tem uma data de nascimento, isto é, há certo momento na história em que toda vida social passa a se modificar por meio da personificação no homem da idéia de subjetividade, esse era o ponto crucial que marca a transição entre a antiguidade e a era moderna. Uma subjetividade cujo produto final se encontra na idéia de “felicidade” e do homem como projeto de realização dessa idéia. A expressão mais bem acaba desse projeto moderno tem suas bases no iluminismo francês, no positivismo inglês, entre outros.

Tais movimentos partilham algumas crenças que promovem em variados graus a racionalidade como princípio ordenador do sistema social, principalmente  a razão de tipo instrumental, em que as ações passaram a ser meramente causais, de meios e fins, dirigidas essencialmente para o controle em direção a felicidade e a liberdade do homem através de um modelo de ação estritamente burocrático que permeia as instituições sociais.

É nesse sentido que o extermínio em Auschiwitz descrita por Levi pode ser entendida não como um evento desviante do projeto moderno, mas sim como manifestação concreta da realização dessa modernidade quando muito podendo ser justificada como lamentáveis necessidades operacionais.

 

(…) Auschwitz foi uma construção típica do século XX, que fundia em si mesma a mais alta racionalidade dos meios (a engenharia de construção do campo, a logística, a divisão do trabalho, a fábrica, a administração burocrática e racional, a racionalidade instrumental e funcional, o monopólio da força pelo Estado) e a mais completa irracionalidade dos fins (a desumanização e o extermínio dos judeus, comunistas, eslavos, ciganos, homossexuais, presos políticos). 

 

Contudo, a escrita de Levi não se restringe a maldizer o Estado nazista responsável por Auschwitz, embora tenha dito que jamais poderá perdoar seus agentes. Levi prefere evidenciar principalmente a total extinção do espaço político, isto é, quando há uma esfera da vida social que se pretende absoluta, há ao mesmo tempo no sentido inverso a maximização do processo de despolitização da vida social.

Nisso consiste talvez a maior angústia de Levi, expresso pelo relato de um sonho recorrente quando era prisioneiro. Um sonho que não era só dele, mas também de seu amigo Alberto e de muitos outros: diz que certa vez estava em casa com sua família e algum amigo, entre as muitas pessoas Levi se põe a contar da história de sua fome, do controle dos piolhos, das surras sem motivo e de muitas privações no campo, apesar da alegria de estar em meio a pessoas amigas e de ter tanta coisa pra contar, percebe que as pessoas não o escutam. Com uma nítida indiferença, conversam sobre si mesmos, como se sua história não significasse nada, as pessoas a sua voltam olham pra ele e saem em silêncio…

Espaços de exclusão: 4.jan.2012 - Usuário de crack se deita na calçada de praca, ao lado da Sala São Paulo, na região central de São Paulo, na primeira noite após operação da Polícia Militar que retirou usuários de drogas da cracolândia. Eduardo Anizelli/Folhapress

Espaços de exclusão: 4.jan.2012 – Usuário de crack se deita na calçada de praca, ao lado da Sala São Paulo, na região central de São Paulo, na primeira noite após operação da Polícia Militar que retirou usuários de drogas da cracolândia. Eduardo Anizelli/Folhapress

Na narrativa de “É isto um homem?” Levi desde o início quis demonstrar que tal conhecimento do horror induz a um estado de angústia insuportável é nesse ponto que diante de nossos valores morais a consciência só possa admitir tais acontecimentos diminuindo-lhe a importância, como se o horror não pudesse ter qualquer relação com a vida cotidiana propiciando assim o esvaziamento de espaços legítimos de fala e escuta. Levi nos diz que esse foi o maior feito do Estado nazista, mas deixa transparecer que não se deve relegar a ele qualquer exclusividade. Nisso consiste o estatuto ético de sua escrita.

Se entendermos hoje, pelo testemunho leviniano que Auschwitz foi um evento esporádico do passado, ocaso do atraso de mentes obsoletas ou simplesmente maquinações de um Estado malévolo por essência, estaríamos igualmente silenciado hoje formas de vida que habitam permanentemente verdadeiros espaços de exceções dentro de uma esclarecida sociedade democrática, detentora de um prodigioso instrumental econômico que permite racionalizar gestos, neutralizar julgamentos. São espaços de exceção locais onde muitos são mantidos com um mínimo de vida possível, segundo regras nutricionais restritas, com direitos jurídicos violados a todo instante, vivendo sob um controle total de seus corpos, expostos a morte violenta.

A escrita de Primo Levi certamente nos remete a tais locais de exceção contemporâneos que variam em sua finalidade, assim como em sua estrutura, que agora objetiva ao silenciamento e ao banimento social de populações inteiras através da criminalização de condutas. Numa democracia liberal massificada que guarda em si tantos resquícios de regimes totalitaristas o que de fato importa é a possibilidade de exercer a cidadania política propiciando espaços em que ela possa surgir e se manifestar.

 

REFERÊNCIA:

LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

BARENGHI, Mario. A MEMÓRIA DA OFENSA: Recordar, narrar, compreender. NOVOS ESTUDOS, n.  73. Nov. 2005, pp. 175-191.

OLIVEIRA, L. A. SE QUESTO È UN UOMO: PRIMO LEVI E O PARADIGMA BIOPOLÍTICO DA MODERNIDADE. Revista Habitus – IFCS/UFRJ. Vol. 9 – N. 1. 2011.

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