Cosmópolis

David Cronenberg constitui ao lado de David Linch e Lars Von Trier a tríade maldita de diretores que de tempos em tempos subvertem o marasmo da cultura de massa. Cada novo filme surge como uma martelada capaz de desorientar o bem aventurado espectador que se atreve a encarar umas de suas obras. Para o bem ou para o mal, certamente é impossível sair ileso desse confronto.

Cosmópolis (2012), adaptação do romance homônimo de Don DeLillo de 2003, apresenta Eric Parker (Robert Pattinson) um jovem e bilionário especulador do mercado de ações que resolve cruzar a cidade em sua luxuosa limousine branca para cortar o cabelo, enquanto arrisca sua fortuna apostando na desvalorização da moeda chinesa. Do lado de fora, o caos toma conta das ruas. Devido à visita do presidente dos Estados Unidos, ruas são fechadas e protestos contra o sistema são realizados, mas nada parece afetar Eric que jaz como um tirano sobre um trono dentro da limousine. É ali que inclusive realiza exames médicos, reuniões de trabalho, dá ordens, recebe informações privilegiadas, além de satisfazer suas necessidades sexuais.

A partir do final da utopia socialista, que desmoronou de vez junto com o muro de Berlim em 1989, vivemos a realização plena da sociedade do consumo. Esta, por sua vez, estabelece as crises financeiras como parte essencial para a regulação do sistema econômico. Sem contar as vidas que se perdem entre uma e outra, vive-se de modo que já não faz tanta diferença quem perde ou quem ganha dinheiro, pois o importante é que o capital continue sempre em movimento.

“Você sabe das coisas, é isso que você faz. Você consegue as informações e as transforma em algo grande e terrível.”

Vive-se hoje sob o imperativo da razão cínica, protestos de proporções globais que reclamam alguma visibilidade são realizados na mesma velocidade em que são esquecidos. A certa altura, quando informado da dificuldade de locomoção pela cidade devido a visita do presidente, o protagonista questiona o chefe de sua escolta: “Que presidente…?” Isso porque ideologicamente já não faz nenhuma diferença quem está no poder, o dinheiro está em um movimento permanente.

Em uma passagem bem peculiar do filme, uma técnica que trabalha para o protagonista bilionário comenta com este último sobre o discurso do ministro das finanças enfatizando que todo o país se põe a analisar esse tal discurso, no entanto, diz ela, o importante não é o que ele disse, mas o que ele não disse, “estão averiguando o que a pausa significa. Talvez não signifique nada. De repente toda a economia vacila só porque um homem quis respirar.” Administrar as desinformações, as lacunas ou os não-ditos passa a ser fundamental para a reprodução da vida social sob o imperativo capitalista, capaz de transformar quotidianamente essa que é uma realidade ficcional em qualquer coisa, inclusive “na coisa mais estupenda e horrível”.

O rato como moeda de troca

Cosmópolis talvez seja o que há de mais contemporâneo na cinematografia mundial sobre a sociedade ocidental (até mesmo profético se considerarmos o ano da publicação do romance literário), nele desfilam os tipos que foram construídos nessa pouco mais de uma década de século XXI: o matemático das fórmulas do mercado financeiro, o gênio precoce da tecnologia, a analista teórica do sistema, o ativista oportunista perseguindo seus minutos de fama, além do especulador financeiro preocupado com a acumulação do capital que toma o carro como um apêndice de si “para marcar território…”. Aliás, o filme acerta ainda mais ao propor como ideia representativa da falência desse sistema econômico, a imagem de um carro superluxuoso de onde se tem a sensação de controlar o mundo, mas que não anda.

Como habitualmente ocorre nos filmes de Cronenberg um elemento aparentemente insignificante determina os rumos da história do personagem. A certa altura, numa consulta de rotina a um médico particular (realizado dentro da limousine), o bilionário perfeito fica sabendo que sua próstata é irregular.

“Morrer de causas naturais se tornou uma decepção”

A constante responsabilização de um certo cuidado com a saúde individual faz com que aquilo que era sentido como perseguição se torne, aos poucos, uma exigência introjetada nos sujeitos na busca por um ideal do corpo, tornando-se parte de um estilo de vida vendido como mercadoria que, por sua vez, passa a integrar a identidade dos sujeitos. No filme, descobrimos a força desse ideal para um jovem que realiza periodicamente exames proctológicos em busca de alguma anomalia, indicando o desconhecimento daquele que manipula informações o tempo todo, mas ignora a realidade de seu próprio corpo. Aqui, assim como em “VideoDrome” (1983) ou “A Mosca” (1986) é o corpo que irá apontar o que de mais real existe nessa realidade ficcional, um corpo que é “assimétrico”, representante daquilo que resiste a ordem do gozo absoluto, imposto pelo capital, quando tudo o mais é subjugado.

“Toda riqueza existe para seu próprio bem. Não há outro tipo de realidade”

Acompanhando a odisseia do protagonista ao barbeiro percebe-se a sensação de uma realidade vivenciada como indeterminação e anomia, isto é, como uma ausência quase total de sentido, condição para o incessante movimento do capital, no entanto, isto não se faz sem algum custo não calculado e até mesmo imprevisível que se mostra através das formas de dissolução do outro ou de si. No ato final temos o embate de dois extremos unidos pela identificação: o jovem, orgulhoso e bem sucedido administrador do capital com um casamento artificial, rodeado de tecnologia e o quarentão solitário (vivido por Paul Giamatti), falido, desiludido e cercado por lixo. Em um mundo cada vez mais esteticamente perfeito promovido por uma política indiferente à crises financeiras, porque esvaziado de todo o sentido, como diz a nota de abertura do longa, uma ratazana pode tornar-se enfim moeda de troca.

Referência:

CRONENBERG, D. Cosmopolis.  França/ Itália/ Canadá/ Portugal. 106min. 2012.

Para saber mais:

Falar de si mesmo lá onde não há mais si mesmo | Vladimir Safatle

Livro:

DELILLO, D. Cosmópolis. Companhia das letras, 2003.

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