Um homem que incomoda

Den Brysomme mannen (2006), algo como “Um homem incomodado” é um filme norueguês/ islandês, dirigido por Jens Lien e com roteiro de Per Schreiner. Trata-se de uma interessante distopia que poderia nos remeter a outras produções como “1984”, “Fahrenheit 451” ou “Admirável Mundo Novo”. No entanto, apesar de também poder ser encarado como crítica social, dessa vez o alvo não são governos totalitários em um futuro distante, mas o estilo de vida nas sociedades contemporâneas e democráticas, subjugadas pelo imperativo da lógica do mercado que termina por empobrecer o sentido da vida.

Andreas (Trond Fausa Aurvaag), depois de uma longa viagem num ônibus caindo aos pedaços desembarca em um velho posto de gasolina onde é aguardado por um senhor que o convida a entrar no carro para levá-lo ao seu novo lar, é durante esse percurso que Andreas fica sabendo que em breve estará em um apartamento todo seu completamente mobiliado, terá um emprego novo e um bom salário também. Apesar da situação inusitada, tudo parece perfeito. Seu novo lar é confortável, o emprego não é ruim, o salário é ótimo e seus colegas de trabalho são simpáticos e cordiais. Na cidade em que está as ruas são amplas e limpas, não há mendicância, nem qualquer espécie de poluição, aparentemente também não há polícia, nem repressão. Contudo, algo parece incomodar Andreas, mas como reagir se nem mesmo se pode ter certeza do que está errado?

Como Andreas não se recorda do lugar de onde veio a coisa certa a se fazer parece ser retornar ao local em que desembarcou para seguir o ônibus que o trouxe, é então que Andreas percebe que não há outro lugar para chegar. Fora da vida urbana tudo é deserto. Ao retornar ainda mais incomodado procura se aproximar de seus colegas de trabalho, pois talvez seu mal-estar seja devido a falta de amizades verdadeiras, só então percebe que se interessam apenas por trivialidades. Eis que talvez se pudesse se apaixonar a vida que levava poderia ter algum sentido. Uma vez estabelecido o relacionamento aparentar ser feliz é mais importante do que realmente se sentir feliz e outra vez Andreas sente-se vazio. Nem mesmo uma aventura extraconjugal proporciona a satisfação que procura.

O incômodo que Andreas sente se torna permanente, está em todos os lugares: nas ruas assépticas da cidade, nas noites de bebedeiras que não embriagam, no sabor ou na falta dele nas comidas industrializadas que consome. Sensações de estranhamento, paranoia e melancolia caracterizam o estado psicológico do personagem ao longo da narrativa.

 Mal-estar na civilização 

A eliminação de todo mal-estar tem sido a razão que move o avanço do conhecimento e o desenvolvimento da tecnologia desde o projeto iluminista no século XIX. Em o “Futuro de uma Ilusão” (1927) Sigmund Freud já atentava para o fato de que o homem civilizado tende a evitar dor e privação por um lado e por outro a procurar fortes gozos, sendo este último o conceito de felicidade obtido até então. Atualmente pode ser percebido na busca quase alucinada pela felicidade prometida tanto pela ciência através das terapias medicamentosas (as drogas da felicidade) quanto pelas novas formas de religiosidade, a serviço de um Eu pragmático, individualista que se ajusta a uma ideologia social narcísica. Mesmo a responsabilização pelo mal-estar, inerente a condição humana, parece ameaçar a ideia de felicidade na contemporaneidade.

Nesse sentido, tanto o diretor quanto o roteirista ao falar de sua própria sociedade terminam por falar de grande parte da humanidade, já que o modelo de desenvolvimento dos países escandinavos e anglo-saxões são a referência para o resto da civilização. Se a Noruega é considerado um dos países mais felizes do mundo é ao mesmo tempo um dos que possuem a maiores taxas de suicídio. Uma contradição que pode melhor ser entendida quando se questiona a respeito do que se entende por felicidade nessas sociedades altamente desenvolvidas.

O processo de empobrecimento da vida que tem se acentuado desde as últimas duas ou três décadas se faz em favor de um pensamento único que é a razão do mercado econômico. Longe de almejar qualquer transcendência as razões do mercado servem apenas a si mesmas, produzindo permanentemente seu próprio esgotamento. A pobreza de uma vida pautada por essas razões consiste na devolução para os indivíduos de sua própria trivialidade, apenas travestidas de uma suposta libertação que só tem sentido quando se reduz a vida humana em suas dimensões mais elementares.

A liberdade, a autonomia individual e a valorização narcísica do Eu que são os grandes pilares que sustentam a ideologia da felicidade nas sociedades modernas. Uma vez devidamente orientadas para o consumo pela regulação do mercado permite ideologicamente a cada indivíduo supor-se criador de si mesmo, isto é, sem considerar a dívida com as gerações precedentes, alude-se, por sua vez, a um sujeito incapaz de reconhecer os laços que o une com seus semelhantes, estejam eles vivos ou mortos. Exatamente como Andreas ao descer do ônibus, no filme aqui abordado, parecendo não ter noção alguma de onde veio ou onde está. Sua nova vida é imediatamente criada e nesse momento, tudo mais deveria deixar de ter importância.

Os agentes do projeto civilizador em andamento ao promover um sujeito auto-referenciando nada quer saber da impossibilidade de suprimir todo mal-estar que habita o sujeito. Apesar de se ter consciência de tal absurdo, tudo se passa como se fosse possível aniquilar toda diferença que percebo no outro e que encontro em mim mesmo através dos meios disponíveis pela técnica.

 

(…)Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Poema em linha reta

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

 Semelhança na diferença

Nas sociedades modernas cada indivíduo deve conviver com uma infinidade de pessoas diferentes dele, uma condição que torna impossível amar esses familiares desconhecidos a não ser que seja possível suprimir toda e qualquer tonalidade afetiva da maioria das relações que se depende no dia-a-dia. Surge daí o tratamento burocrático que tende a homogeneizar os sujeitos, tornando-os seres abstratos e igualmente descartáveis. O filme em questão é repleto de exemplos nesse sentido.

Se esta sociabilidade autoritária avança através do regime da dívida infinita de indivíduos assujeitados, isso só se torna possível porque a “servidão voluntária” (expressão de Etienne de La Boétie do séc. XVI) provoca em cada sujeito grande prazer, como a certa altura no filme uma autoridade da cidade ao se dirigir a Andreas lhe diz que a maioria das pessoas são felizes ali e têm orgulho disso.

O outro não está aí para me amar incondicionalmente, mas para me confrontar em minha diferença. O sentido de existência para um sujeito depende desse sentido ser reconhecido pelos outros com quem se relaciona. É ideologicamente falso pensar que o sentido da existência possa ser obtido a partir de um ato individual. Por isso, quando se limita ou impede a produção de discursos a respeito dos vários sentidos que a existência humana pode assumir ou o que ela deveria ser, o sentido de se estar vivo empobrece e a vida perde gostos, cheiros e sons…

No filme em questão, apenas a partir do encontro com um outro que compartilha de seu mal-estar que Andreas desperta para possibilidade de algum significado da existência. Hugo (Per Schaaning) também percebe que algo está errado, e ao seguir esse estranho familiar Andreas se dá conta de que talvez haja algo mais, além da luz no fim do túnel.

Ao final, Andreas não é punido por um crime contra a vida de um indivíduo ou seus bens, mas ao contrariar um ideológico conceito de sociedade. Sua pena não é a prisão característica das sociedades disciplinares do séc. XIX, estudadas por Michel Foucault, mas o banimento da própria sociedade. Atualmente, não se trata mais de recuperar, reeducar ou reintegrar o “criminoso”. Todo investimento social se dirige agora para tirá-lo definitivamente de circulação. Assim como uma reescritura da pena de morte, Andreas é sentenciado a uma morte simbólica. A semelhança de uma morte em vida, como uma Antígona de Sófocles da modernidade.

Referências:

Den Brysomme Mannen. Direção de Jens Lien. Noruega/ Islândia, 2006. 95 min.

KEHL, M.R. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Sobre suicídio nos países nórdicos: RESTTERTOL. N. Suicide: a European perspective. Cambridge University Press, 1993. 

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