Uma quase biografia de quem nunca existiu

“Profissão: a designação mais própria seria tradutor, a mais exata a de correspondente estrangeiro em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão; mas vocação.”
Fernando Pessoa, nota autobiográfica (1935)
 

Diz-se em Portugal que se por acaso fosse realizada uma lista dos dez maiores escritores portugueses do século XX Fernando Pessoa ocuparia pelo menos as quatro primeiras colocações.

Por mais paradoxal que possa ser é ao mesmo tempo fácil e extremamente difícil falar sobre a vida de Fernando Pessoa. É fácil, pois enquanto existiu Pessoa atravessou a vida como um homem comum, sem chamar atenção, isto é, não ocupou cargo de destaque, não recebeu grandes prêmios de reconhecimento, não acumulou riqueza… Enfim, se naquele tempo andando pelas ruas de Lisboa passássemos por ele nem ao menos o notaríamos. No entanto, a dificuldade que apontei consiste em reconhecer que Fernando Pessoa não foi nada disso.

A totalidade de seu espólio chega a cerca de 30 mil documentos! Entre prosas, poesias, críticas literárias, cartas… Se fossem encadernados caberiam em quase 60 livros de 500 páginas! A amplidão de seus escritos engloba temas como: família, infância, amizade, mitologia, política, memória, sonhos, ilusões, angústia, solidão, etc.

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.”
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; escrito entre 1913-15; publicado em Atena nº 5 de Fevereiro de 1925.
 

Fernando Pessoa na Baixa de Lisboa.

Na cidade de Lisboa em 13 de junho de 1888 nasce Fernando António Nogueira Pessôa, filho de Joaquim Seabra Pessôa (funcionário público) e Maria Magdalena Pinheiro Nogueira que possui uma das melhores formações que uma mulher poderia ter no início do século XX. Estudou em colégio britânico, tocava piano, conhecia latim, falava fluentemente francês, alemão e inglês e ocasionalmente fazia versos.

Quando o pequeno Fernando tinha 5 anos de idade seu pai falece devido a complicações de tuberculose, aos 43 anos de idade. Essa ainda não seria a última grande perda para Fernando. Dois anos depois sua mãe se casa com João Miguel dos Santos Rosa, comandante da marinha que serve em Durban, África do Sul. Lugar onde se estabelece com a esposa e o enteado em 1896.

Fernando passa a freqüentar colégios ingleses, onde aprende a falar e escrever fluentemente a língua inglesa. Aos sete anos de idade já assinava apenas Fernando Pessôa (ainda com acento) em seu primeiro verso.

Fernando Pessoa com a mãe, os irmãos e o padastro em Durban.

É na África que ganha e perde irmãos. A sua irmã mais próxima Henriqueta Madalena, nasce em 1896, Luis Miguel em 1900, João Maria em 1902. Além das irmãs que faleceram ainda crianças: Madalena Henriqueta (1898-1901) vítima de meningite e Maria Clara (1904-1906) por septicemia. Mortes que certamente foram decisivas para formar a visão que Fernando Pessoa teve do mundo.

Em 1905 Fernando volta sozinho e definitivamente para Portugal. Não há propriamente uma causa específica para seu retorno à Europa, contribuem alguns desentendimentos com o padrasto e com a mãe, além de uma grande saudade da terra natal.

No mesmo ano em que se estabelece em Lisboa se matricula no Curso Superior de Letras, com o intuito de seguir carreira diplomática. No entanto, desiste do curso antes de completar um ano. Novamente não um há motivo para essa desistência, somam-se alguma insatisfação com a orientação do curso, a morte da avó que lhe deixa alguns recursos, mais algum período de doença que não lhe permite realizar os exames.

Em 1908 começa a escrever traduções de cartas comerciais, emprego que mantém durante o resto da vida. Ao longo da vida envolve-se com ocultismo, maçonaria, astrologia, mas sem dogmatismo de nenhuma espécie. Em meio as intensas mudanças políticas de seu país se autodeclara anticomunista e antissocialista.

Em 1915, prepara com os amigos Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros a revista Opheu, que marca o modernismo português apesar de não passar de sua segunda edição.

A unica relação amorosa relativamente significativa (mas não assumido publicamente) foi com Ophelia Queiroz.  Fernando Pessoa nunca se casou nem teve filhos. Em vida, publicou apenas dois livros uma coletânea de poemas em inglês sob o título: Antinous e 35 Sonnets e English Poems I – II e III, editados em Lisboa, em 1918 e 1921 e Mensagem em 1934. Faleceu em 30 de novembro de 1935 aos 47 anos de idade após escrever um dia antes no leito do Hospital: “I know not what tomorrow will bring”.

A arte de fingir

“Posso imaginar-me tudo, porque sou nada. Se
fosse alguma coisa, não poderia imaginar.”
 

Se a vida vivida de Pessoa não foi tão extraordinária como se pode viu, sua vida sonhada foi, por outro lado, talvez a experiência mais intensa que um ser humano poderia ter. A viagem mais fantástica foi para dentro de si mesmo e os reconhecimentos mais gratificantes vieram de seus múltiplos Eus. Fernando Pessoa(s) só poderia ser superado por ele mesmo sendo outro.

Estátua de Fernando Pessoa no café A Brasileira do Chiado em Lisboa

Longe de se constituir em disfarce, a heteronímia em Fernando Pessoa, é antes de tudo, uma forma de desvendamento. Segundo uma definição restrita, heterônimos são pessoas imaginárias a quem se atribui uma obra literária, com autonomia de estilo em relação ao autor. Consideram-se três grandes heterônimos na obra de pessoa, são eles: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. A personalidade e o estilo de cada um foi devidamente desenvolvida na sua respectiva obra, assim como nas relações entre si. Além disso, Fernando Pessoa criou uma biografia para cada um eles formando um “verdadeiro conjunto dramático” em um teatro subjetivo.

Contudo é ainda difícil precisar em quantos se desdobrou Fernando Pessoa. Entre heterônimos, semi-heterônimos, ortônimos, personalidades literárias e pseudônimos pode-se considerar números divergentes dependendo da fonte. Numa classificação mais restrita em que se incluem a relevância para o autor pode-se chegar a 12 verdadeiros heterônimos, número que, aliás, pode variar, pois dependendo do critério utilizado para classificá-los.

“Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.”
Passagem das horas, Álvaro de Campos
 

Fernando Pessoa, Bernardo Soares, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Caricatura por por Rui Pimentel.

Talvez haja algo, apesar de tudo, que se possa apreender desse conjunto disperso, esse algo persiste a cada vez que alguém se pergunta sobre si mesmo desse algo não podemos ter nenhuma certeza, mas está em cada jogo de linguagem, em cada antítese, paradoxo ou oximoro. Algo que sempre nos escapa e que não pode ser encontrado nos objetos do mundo (por mais que se queira nos fazer pensar ao contrário), tão pouco está no plano etéreo. Pessoa nos faz crer que aquilo que buscamos está no impossível encontro com outro, do qual ansiamos e fugimos como porcos-espinhos que necessitam de calor, mas não podem se tocar para aquecer-se sem ser espetados. Está aí à impossibilidade de ser, mas o único caminho.

Compartilhamos ainda hoje essa mesma dúvida com Pessoa: temos uma existência real ou não somos mais que um texto que inventamos para nós mesmos e encenamos para os outros? Passeando pelo labirinto de Pessoa, visitando cada faceta de sua realidade sonhada podemos pressentir sua resposta como um rugido do lendário Minotauro.

“Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo…”
Odes (13/11/1935), Ricardo Reis
 

Alberto Caeiro

Alberto Caeiro da Silva é um quase analfabeto, órfão de pai e mãe tem apenas instrução primária e viveu quase toda vida em casa modesta fora das grandes cidades no cimo do outeiro com amplo quintal a sua frente ao pé do rio de sua aldeia. Morava com uma velha tia avó vivendo de pequenos rendimentos até sua morte vítima da tuberculose.

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. (…)”
O guardador de rebanhos, Alberto Caeiro
 

Caeiro foi o mestre que faltou a Pessoa em vida, aquele a quem se

Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar. (…)                                                              “O guardador de rebanhos”, Alberto Caeiro

admira pela simplicidade e sabedoria. Alguns dos 49 poemas que integram “O Guardador de Rebanhos” foram publicados pela primeira vez em 1925, na Revista Athena, pelo próprio Pessoa. Sua filosofia é não ter filosofia nenhuma, por isso constrói versos a partir do que percebe a sua volta: a natureza.

Caeiro teve como discípulos além do próprio Pessoa, os heterônimos Álvaro de Campos e Ricardo Reis, que apesar da influencia do mestre seguiram caminhos opostos na arte e na vida.

Em seu paganismo quase primitivo a escrita de Caeiro é permeada por discussões complexas como a incapacidade da linguagem representar o real, por isso se lança a empreitada de retirar o véu com que a linguagem encobre a realidade.

Álvaro de Campos

O quase engenheiro naval Álvaro de Campos, assim se considera por profissão, apesar de ter abandonado o curso de engenharia na Escócia. É um homem da cidade grande, crítico da vida e angustiado nas sensações, sua poesia é despejada em versos como quem faz prosa. 

“Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.”
Sem título (sem data), Álvaro de Campos
 

Campos é o poeta que busca “sentir tudo de todas as maneiras” ou ao menos, registra sua impossibilidade de fazê-lo. De longe é o mais interessante dentre os heterônimos pessoanos e talvez aquele que guarda maior relação com seu criador, ao menos por ser aquele a acompanhá-lo pela vida, dentre diversas fases, até o fim.

Não por acaso Campos é o autor de um dos melhores poemas já escritos em língua portuguesa e quem sabe dentre todos os idiomas: “TaBaCaRia”, foi publicado em julho de 1933 na revista Presença, número 39.

O encontro com Alberto Caeiro, desperta a poesia que vinha guardando em si, mesmo a grande admiração pelo mestre Caeiro não o impede de questioná-lo e tirar desse questionamento sua própria filosofia.

“Vi em tudo caminhos e atalhos de sombra, e a sombra e
os atalhos eram eu. Ah, estou liberto… Mestre Caeiro. Voltei à tua
casa do monte. E vi o mesmo que viste, mas com meus olhos.”
Após o que completa: “Ah, se todo esse mundo claro, e estas flores
e luz, se todo esse mundo com terra e mar e casas e gente, se isto é
ilusão, por que é que isto está aqui?”
Notas para recordação do meu mestre Caeiro, Alvaro de Campos
 

Bernardo Soares

A arca de Pessoa, tal como foi deixada por ele. Ao fundo sua estante recheada de livros.

Ajudante de guarda livros da Rua dos Douradores, não pode ser tido como um exemplo de heterônimo de Pessoa é como o próprio diz “uma mutilação de sua própria alma”, talvez por isso guarde com ele certa homofonia no nome: Fer-nan-do Pes-so-a/ Ber-nar-do So-a-res como um quase anagrama.O livro do Desassossego ocupa 22 anos de vida de Pessoa de 1912 a 1934 sem propriamente um início objetivo ou final definitivo. Composto apenas por mais de 500 fragmentos encontrados em envelopes deixados na Arca. É referido por Pessoa ao longo dos anos como “diário ao acaso”, “divagações sem pressa”, “história sem vida”, “autobiografia de quem nunca existiu”. A edição em livro conheceu várias organizações ao longo dos anos desde 1982, data da primeira versão.O livro do desassossego por sua forma e conteúdo é tido como um livro representativo do século XX. Por seu conteúdo é o projeto falido de uma época, como o lamento daquilo que há de mais sublime no homem, mas que não chegou a nascer ou como a definição do próprio Soares “um gemido”. Por sua forma prenuncia o século XXI, construído a partir de fragmentos e também pela atribuição realizada por estudiosos em razão do estilo, faz dele uma verdadeira obra coletiva (há quem defenda que nele há uma nítida distinção entre dois heterônimos pessoanos).

 
 “Os sentimentos que mais doem são os quesão absurdos — a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo
do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação
da existência do mundo.” 
Bernardo Soares
 

Pessoa para pós-modernidade

Assim, como “um louco que sonha alto, contribuo
talvez para engrandecer o universo; porque quem, morrendo,
deixa escrito um verso belo, deixou mais ricos os céus e a terra e
mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente”
 

Todas as tentativas de descrição são insuficientes quando se trata de abordar a vida e obra de Fernando Pessoa. Isso porque inevitavelmente remete a um psicologismo estéril na tentativa de reduzir a experiência dramática de Pessoa a momentos significantes de um indivíduo que caiba numa descrição biográfica qualquer.Certo é que o impacto de Fernando Pessoa na cultura extravasa o campo literário ao imprimir determinações que extrapolam principalmente a idéia de identidade individual e da atribuição de autoria a uma obra artística.A primeira implicação nos sugere que para quem se desdobrou em incontáveis Eus é no mínimo discutível a concepção de uma única identidade como sede obrigatória de todas as experiências humanas.A segunda implicação coloca outra inquietação se a busca de todo autor é imortalizar-se por meio de sua obra pela afirmação de sua assinatura, o que dizer de Pessoa cuja maior parte de sua produção artística nem sequer foi publicada, quando o foi preferiu ser outro ou ainda deixou sem autoria outros tantos escritos.Tais implicações terminam por preocupar a quem defende a normatividade da personalidade ou a atribuição artística de uma produção. Em um texto como o desassossego, por exemplo, seria possível dizer de quem é a obra? Ou quem é seu autor? Certamente não. Nem isso parece ser desejável. Com suas múltiplas referencias não é possível creditar a Pessoa nem mesmo alguma originalidade, ficando comprometida a existência da pessoa do autor como conceito jurídico cujo objetivo é a atribuição de propriedade intelectual no interior do sistema capitalista.Pessoa nos diz que a mais espetacular viagem humana é para dentro de si mesmo, não para se embriagar de algum prazer narcísico, mas para se encontrar na alteridade. Seu ato transgressivo abandona o Eu e se dispersa na multiplicidade porque reconhece o outro em si, seus gozos e angústias. O avesso do movimento neurótico egocentrado tão comum em nossos dias.As personas imaginadas por Pessoa não servem para reforçar seu Eu, ao contrário o anulam transformando Fernando Pessoa na maior ficção de si mesmo.

“Um dia talvez compreendam que cumpri como nenhum outro o meu dever nato de intérprete de uma parte de nosso século, e quando compreendam ao escrever que na minha época fui incompreendido que infelizmente vivi entre desafeiçoes e friezas e que é pena que tal me acontecesse. (…) Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.”
 

 Tabacaria (Álvaro de Campos)

por Antônio Abujamra

Referências:

CAVALCANTI FILHO, J. P. Fernando Pessoa: uma quase autobiografia. Rio de Janeiro: Record, 2011.

PESSOA, F. Livro do Desassossego / por Bernardo Soares. Intro e org. Richard Zenith. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

PESSOA, F. Poemas escolhidos. Frederico Barbosa (Org). São Paulo: Klick editora, 1997.

GRANDES LIVROS I. Livro do desassossego.ep.8. Produção de João Osório. Lisboa: Companhia de Ideias (50min.) 2009.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s