ANTÍGONA

Antígona por Fredrick Leighton, 1882

Antígona por Fredrick Leighton, 1882

Filha da relação incestuosa entre Édipo e Jocasta, Antígona está marcada por um destino trágico desde o nascimento, assim como seus irmãos Ismene, Etéocles e Polinices, os dois últimos rivais fratricidas vitimados numa disputa pelo trono da cidade de Tebas. O interesse por Antígona situa-se justamente quando da ocasião do assassinato mútuo dos irmãos é negado a Polinices o direito a um sepultamento honrado. O então soberano de Tebas, Creonte, irmão de Jocasta percebe em Polinices um culpado pelo ataque contra a cidade conhecida por ‘Sete contra Tebas’. O não sepultamento do corpo de Polinices seria o primeiro edito de Creonte como rei um castigo para sua alma que estaria condenada a vagar 100 anos pelas margens do rio dos mortos sem conseguir atravessá-lo.

Antígona, indignada em vão tenta convencer seu tio e rei a permitir um sepultamento do irmão, por isso mesmo, no meio da noite Antígona rouba o cadáver de seu irmão para enterrá-lo com suas próprias mãos, porém ao ser descoberta é presa e condenada pelo rei a ser sepultada ainda viva.

Uma vítima terrivelmente voluntária

Muito já foi dito sobre a tragédia, em uma leitura rasa se convencionou a demarcar lugares sob o ponto de vista jurídico, a Antígona estaria reservada o pronunciamento da lei divina em oposição a Creonte que proclama a lei dos homens do embate entre dois deveria haver alguma harmonia para haver paz.

Contudo, a redução do sentido da decisão de Antígona empobrece o texto o que impede de se extrair dele uma ética do sujeito na sustentação de seu desejo.

Certo psicanalista francês, Jacques Lacan (1901-1981), chama nossa atenção para o alcance da tragédia de Sófocles que comporta um efeito de comoção, para além de seu desenvolvimento moralizante, capaz de remeter a família e a pátria. É o próprio brilho da imagem dessa “vítima tão terrivelmente voluntária” capaz de habitar dois mundos que nos fascina.

Antígona reconhece desde sempre seu destino trágico quando se revolta contra uma lei da Cidade-Estado (político) que para ela é ao mesmo tempo um dever familiar (genealógico) e de gênero, encarnada pela vontade do seu tio e rei Creonte. No entanto, sua conduta não vacila em nenhum momento, nem mesmo diante da reprovação da maioria e da terrível antevisão da morte, ela não se sente culpada por pensar diferente do que é considerado o esperado para uma mulher em sua posição, com deveres para com a pólis.

Antígona é surpreendida pelos guardas e levada até o rei

Antígona é surpreendida pelos guardas e levada até o rei

Creonte dirigindo-se a Antígona: “[…] confirmas a autoria desse feito, ou negas?”

Antígona: “Fui eu a autora; digo e nunca negaria.”

Creonte: “Agora, diga rápida e concisamente: sabias que um edito proibia aquilo?”

Antígona: “Sabia, como ignoraria? Era notório”.

Creonte: “E te atreveste a desobedecer às leis?”

Antígona: “[…] essas leis são as ditadas entre os homens pela justiça […]; e não me pareceu que tuas determinações tivessem força para impor aos mortais até a obrigação de transgredir normas divinas, não escritas, inevitáveis; não é de hoje, não é de ontem, é desde os tempos mais remotos que elas vigem, sem que ninguém possa dizer quando surgiram. E não seria por temer homem algum, nem o mais arrogante, que me arriscariaa ser punida pelos deuses por violá-las. Eu já sabia que teria de morrer (e como não?) antes até de o proclamares … […] mas não sofro agora”.

Corifeu: “Evidencia-se a linhagem da donzela indômita, de pai indômito; não cede nem no momento de enfrentar a adversidade.”

Antígona diz: “A morte nos impõe as suas próprias leis.”

 

Édipo e sua filha desventurada em Colona

Édipo e sua filha desventurada em Colona

Antígona se revolta contra uma lei que não tem força de lei, pois são como particulares estabelecidos a força a partir de um sentido arbitrário que o rei julga ser para o bem de todos. Antígona por sua vez obedece à razão de ser fiel a si mesma de acordo com um sentido que a transcende conforme a lei dos deuses, isto é a lei que não está em lugar algum, em suma, a lei do inconsciente.

A beleza de sua tragédia está em que com seu ato, Antígona mantém-se entre dois mundos, na zona em que a morte invade a vida. Sem esperar pelo perdão, em total solidão, sem ajuda e em um total desamparo sem, contudo, dela transbordar nenhum desespero, pois o seu ser está para além da angústia.

Antígona: “[…] sem ser sequer chorada por amigo e condenada por que leis, eu vou para esse cárcere todo de pedras, que será meu insólito sepulcro! Como serei desventurada ali, nem pertencendo aos vivos, nem aos mortos!”

Antígona: “[…] Meu irmão infortunado! Que reunião a nossa! Transformas-me, morrendo, em morta-viva”.

Antígona: “[…] E agora, Polinices, somente por querer cuidar de teu cadáver, dão-me esta recompensa. Mas, na opinião da gente de bom senso, todo o meu cuidado foi justo […]. Que leis me fazem pronunciar estas palavras? […] Obedeci a essas leis quando te honrei mais que a ninguém. Creonte acha, porém, que errei, que fui rebelde […].”

Creonte não condena Antígona a uma morte direta, mas a uma vida subterrânea, com isso sente-se livre de mais um derramamento de sangue. É assim que ao ser condenada, Antígona se encontra entre duas mortes, a primeira sendo a morte simbólica de ser enterrada em vida, isto é, apagada da presença entre os vivos e a morte definitiva do corpo, a segunda morte.

Antígona permanece ao lado de édipo até o fim

Antígona é a única filha que permanece ao lado de Édipo até o fim

Tirésias é aquele que busca restaurar o sentido, por isso insiste na reparação de Creonte ao negar a sepultura ao morto para destiná-la ao vivo. Era necessário restabelecer nos limites do não sentido aquilo que Creonte não deu ouvidos. Aquilo que Antígona soube sustentar até o derradeiro fim em sua segunda morte. É a isso que se dirige a ética na psicanálise, a saber: possibilitar ao sujeito não ceder no seu desejo, realizar o universal na contingência. Não visa um bem, nenhum benefício que possa derivar da sua realização.

Por não ceder em seu desejo Antígona envereda por uma via trágica, ela não porta seu desejo, não o domina, mas é efeito dele. Como afirmava Lacan: o desejo do sujeito é o desejo do Outro, isto é, de algo que é anterior a ele desde sempre e que o determina.

Dessa forma, a lei (com minúsculo) totalitária de Creonte se distingue da Lei (com maiúscula) do desejo que determina Antígona que não a escolhe para seu benefício, pois o sentido escapa a sua compreensão.

Nesse ponto a psicanálise se situa no oposto da moral contemporânea, enquanto recusa de um imperativo que convida o sujeito ao gozo ilimitado como um fim em si que desconhece a transcendência, pois percebe o eu como único beneficiário sempre culpado por não aproveitar até o limite a liberdade consentida através dos artigos disponíveis para o consumo.

Por efeito de uma lei tirânica que busca se fazer totalizadora para o “bem de todos” é que se situa, contraposta, a ética de Antígona, a ética mesma da psicanálise.

Referências:

Lacan, J. (1997). O seminário. Livro 7. A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1959-1960).

Clique na imagem para baixar o livro

Clique na imagem para baixar o livro


Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s