O filósofo que nasceu póstumo

Conheço minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo — de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. […] (NIETZSCHE, 1888, de como a gente se torna o que a gente é. Porque Sou um Destino).

Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, na atual Alemanha, em meio a uma família tradicionalmente religiosa, seu pai, Karl Ludwig Nietzsche foi um modesto pastor luterano. Aos 5 anos de idade o pequeno Nietzsche perde o pai, a quem era muito ligado e logo em seguida o irmão mais novo. Na juventude Nietzsche estudou com afinco a Literatura Clássica grega e latina, além dos poetas Românticos. Por influência desses grandes autores e de seus professores, pouco a pouco o jovem Nietzsche se afasta do cristianismo. Na universidade matricula-se em Teologia e Filologia, nesse período conhece a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860), tendo uma influência definitiva sobre ele. Cumpre voluntariamente o serviço militar em 1867 interrompido por uma queda do cavalo, limitando seus movimentos. Ainda na juventude, acredita-se que possivelmente contraiu Sífilis em visitas a prostíbulos, o que lhe conferiu uma vida não muito saudável. Aos 24 anos doutora-se sem defender tese alguma, apenas pela qualidade de suas publicações e passa a ensinar filologia clássica na Universidade de Basiléia, na Suíça. Aos 35 anos as dores de cabeça que vinham desde a mocidade pioram, além de dificuldades para enxergar obrigam Nietzsche a encerrar sua breve carreira acadêmica e se aposentar, passando a viver pelo resto da vida de uma pequena pensão cedida pela Universidade. Em relação à vida social Nietzsche não era nada popular entre seus contemporâneos, nunca teve fama ou reconhecimento que pudesse desfrutar. Sua aparência não convencional, aliado ao temperamento recluso afastava qualquer pretendente por isso nunca se casou ou teve filhos. Após a aposentadoria precoce, Nietzsche passa a maior parte da vida mudando-se entre Alemanha, Suíça, Itália e França a fim de encontrar o clima mais apropriado a sua saúde frágil, quando não estava escrevendo fazia grandes passeios, principalmente às montanhas suíças. Nesse período conhece a russa Lou Andreas-Salomé, uma jovem intelectual que admirava seus escritos e a quem Nietzsche propõe casamento em 1882, mas que foi recusado sendo a mais amarga decepção amorosa de sua vida. No final de 1888 com cerca de 45 anos a sífilis adquirida na juventude, já em estágio avançado agrava seu estado mental, levando-o a ter frequentes surtos e delírios em que pensava ser Jesus, Napoleão, Alexandre O grande.

Nietzsche morreu aos 56 anos de idade em 25 de agosto de 1900[1]. Para ele, vida e dificuldade eram inseparáveis.

Pessoas loucas, tempo estranho…

A grande sacada de Nietzsche foi conseguir perceber as transformações de sua  época e adiantar-se a elas. Constatou que os modelos teóricos para explicar o mundo que faziam

Nietzsche pop: A imagem do filósofo é frequentemente explorada pela indústria cultural.

sentido até pouco tempo atrás não fazem mais sentido na modernidade; as referências que orientavam nossa maneira de pensar foram desacreditadas; valores e normas que orientavam nossa conduta tornaram-se obsoletos; discursos que antes faziam sentido caíram em descrédito. As grandes ideias transformaram-se em opiniões descartáveis, tudo é relativo em uma sociedade sem critérios. O próprio homem parece ter se perdido, o que significa adotar o dogmatismo, como nas religiões fundamentalistas ou aumentar o rebanho dos que reivindicam uma atitude moralizadora para a sociedade.

Abraçar a pluralidade de pontos de vista que nada tem a dizer faz com que percamos de vista o que é essencial. Nietzsche é aquele que constata esse estado de coisas e as denuncia.

Se a modernidade vive uma crise dos princípios e dos valores morais Nietzsche surge para dizer que ao invés de esperarmos pela redenção divina ou considerar que tudo já está perdido, há uma alternativa: afirmar a vida tal como ela é. Para isso, a tarefa que Nietzsche se impõe é grandiosa e dolorosa ao mesmo tempo, isso porque implica na transmutação desses valores que enfraquecem e deixam o homem confuso.

Os estranhos ensinamentos

Para poder analisar e criticar o espírito de sua época Nietzsche funda uma nova técnica de interpretação da realidade, seu “método” consiste em refazer o caminho contrário e ir à origem dos valores morais, o resultado obtido é a multiplicação dos sentidos que atribuímos aos valores que considerados absolutos [2].

Sua obra é contraditória, o que inclui rejeitar a si mesmo como o revelador da verdade absoluta, longe de querer ser o mestre orientador de discípulos, Nietzsche desprezava tanto o que segue quanto aquele que conduz, desejava tornar o homem potente, não um dominador. Entende que não há uma formação possível do homem em uma direção definida a priori por que não há uma essência humana imediatamente reconhecível e moldável. É por isso que pelo desapego e pela desconstrução é que se chega a ser o que se é.

O que interessa para Nietzsche é a interpretação da interpretação, isto é, revelar a interpretação por traz das grandes verdades. Desse modo, pode constatar que o sentido da existência humana, é impossível de ser alcançada por meio da racionalidade científica ou religiosa.

A exemplo da constituição de correntes kantianas, marxistas ou freudianas a contradição da obra nietzschiana impede qualquer sistematização e assim inviabiliza um projeto de constituição de uma escola de pensamento. Nietzsche é o filósofo da ausência do ensinamento, do livrar-se mais do que encarregar-se.

Tanto a forma quanto o estilo que Nietzsche utiliza para passar adiante sua doutrina da ausência de doutrina, revela sua promoção do estranhamento, seu profeta em “Assim Falou Zaratustra”, é o homem das montanhas que odeia as planícies, desconstrói o conceito de romance novelesco, transformando seu texto em um mosaico de palavras e parábolas que apenas lembram os evangelhos cristãos, mas que anunciam a novidade anticristã. Em seus aforismos poéticos Nietzsche rejeita a dicotomia entre o que se diz e a forma daquilo que se diz. Seu estilo artístico de escrever o equipara a um grande poeta que declama com beleza e profundidade sua autenticidade.

Seu herói é um anti-herói. Zaratustra torna-se sábio na caverna para sair da completa solidão rumo sua jornada em busca de quem o ouça, não se dirige aos pobres ou fracos de espírito para redimi-los, mas volta-se aos afirmadores da vida, seus ensinamentos já são excedentes de vida, por isso, não retorna mais pleno e virtuoso, ao contrário, sua história não é narrada como uma grande viagem rumo a uma meta, Zaratustra é apenas um caminhante sem meta.

A morte de Deus

Não ouvistes falar daquele homem louco que, em plena manha clara, acendeu um candeeiro, correu para o mercado e gritava incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’— E, como lá se reunissem justamente muitos daqueles que não acreditavam em Deus, provocou ele então grande gargalhada. ‘Perdeu-se ele, então?’, dizia um. ‘Ter-se-ia extraviado, como uma criança?’, dizia outro.’Ou se mantém oculto?

Tem ele medo de nós? Embarcou no navio? Emigrou?’ — desse modo gritavam e riam entre si. O homem louco saltou em meio a eles e trespassou-os com o oUiar. ‘Para onde foi Deus?’, clamou ele,’eu vos quero dízê-lo! Nós o matamos, vós e eu! Nós todos somos seus assassinos? Como, porém, fizemos isso? Como pudemos tragar o oceano? Quem nos deu a esponja para remover o horizonte inteiro? Que fizemos nós quando desprendemos esta Terra de seu sol? Para onde se move ela, então? Para onde nos movemos nós? Longe de todos os sóis? Não nos precipitamos sem cessar? E para trás, para o lado, para frente, de todos os lados? Há ainda um alto e um baixo? Não erramos como através de um nada infinito? Não nos bafeja o espaço vazio? Não ficou mais frio?

Não vem, sem cessar, sempre a noite e mais noite? Não se tem que acender candeeiros pela manhã? Nada ouvimos ainda do rumor dos coveiros,que sepultam Deus? Nada sentimos ainda do cheiro da decomposição divina? — também os deuses se decompõem! Deus morreu! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como é que nos consolamos, nós os assassinos de todos os assassinos? Aquilo de mais santo e poderoso que o universo possuiu até agora sangrou sob nossos punhais — quem enxuga de nós esse sangue? Com que água poderíamos nos purificar? Que cerimônias de expiação, que divinos jogos teríamos de inventar? A grandeza desse feito não é demasiado grande para nós? Não teríamos que nos tomar, nós próprios, deuses, para apenas parecer dignos dele? Jamais houve um feito maior — e sempre quem tenha apenas nascido depois de nós pertence, por causa desse feito, a uma história mais elevada do que foi toda história até agora!’ — “Aqui, calou-se o homem louco e mirou de novo seus ouvintes. Também estes silenciavam e olhavam-no com estranhamento. Finalmente, ele arrojou o candeeiro ao solo, de modo que este se estilhaçou e apagou.’Chego cedo demais’, disse ele então; ‘não estou ainda no tempo oportuno. Esse acontecimento formidável está ainda a caminho e peregrina — ele ainda não penetrou nos ouvidos dos homens. Relâmpago e trovão precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo, feitos precisam de tempo, mesmo depois de consumados, para serem vistos e ouvidos.

Este feito está ainda mais distante deles do que os astros mais remotos —, e todavia eles o consumaram’. Conta-se ainda que, no mesmo dia, o homem louco teria entrado em diversas igrejas e nelas entoado seu requiem aetemam Deo. Conduzido para fora e instado a falar, teria ele replicado sempre apenas isto: ‘O que são, então, as igrejas, se não criptas e mausoléus de Deus?” (NIETZSCHE, 1882, Gaia Ciência; aforismo 125: O Homem louco).

Ao denunciar a morte de Deus, Nietzsche nos aponta o dedo inquisidor se referindo a todos nós como seus assassinos.

Para Nietzsche, matamos Deus quando reprimimos a vida, sua genealogia condena a moral judaico-cristã, que por sua vez não é mais que uma simplificação da metafísica de Platão (428-348 a.C.), por ter transformado aquilo que é natural nos seres humanos em vícios e em virtude tudo o que oprime a natureza humana, constata que sua finalidade é repressora e não libertária. Ao condenar as paixões e os desejos humanos, a moral metafísica inventa o dever para disciplinar os homens. A transgressão, inventada por homens para oprimir homens, provoca culpa e está sempre sujeita a castigos.

Por ter transformado a vida em angústia, medo e remorso, a moral judaico-cristã inventa outra vida ideal como recompensa aquele que sacrifica sua vida através da submissão aos valores fracos do cristianismo. Há quem se beneficie desses valores fracos, é uma pequena parcela da sociedade que impõem aos fortes, valores que os enfraquecem e os aprisionam. Para que esse estado de coisas se configurasse, Nietzsche percorre grande parte do pensamento ocidental até Platão e sua filosofia dualista. A metafísica platoniana considera o plano das ideias, lugar da perfeição divina em contraposição a realidade sensível de onde tiramos nossa experiência. Platão estabelece as bases do cristianismo e de toda a racionalidade ocidental ao declarar a realidade em que vivemos como enganosa apenas simulacro do mundo ideal, a qual pertencem as formas puras que o homem deve se esforçar por revelar.

Nossa alma ou espírito, nossa verdadeira essência e princípio inteligível, estaria como se prisioneira de nosso corpo, sendo por isso induzida ao erro e ao engano pelos sentidos, que nos arrastam para o plano das aparências, desviando-nos do que seria nossa verdadeira destinação: a contemplação das formas puras. (Giacoia Júnior, 2000, p.12)

Nietzsche diz que é daí que o cristianismo se nutre, tanto como religião quanto moral. Ao propagar um reino dos céus não faz mais do que simplificar a filosofia platônica.

Ao constatar a morte de Deus, Nietzsche fala da impossibilidade em pautar nossas ações por um bem supremo e divino, pois todo o conhecimento é inevitavelmente pautado por interesses. A verdade absoluta não pode ser mais alcançada, assim como a beleza e a justiça. Diante de diversos interesses a ciência, a religião e a moral não são mais suficientes para o homem moderno, porque não são capazes de responder o sentido da existência humana no mundo.

Para Nietzsche deve-se manter os fortes como tal e libertar os aprisionados por essa racionalidade, pois o bem é tudo o que fortalece o desejo, a vida e o mal tudo o que é contrário a ela. A moral racionalista pretende-se humanista, por isso Nietzsche declara a necessidade do além-do-homem (Übermensch), um homem livre cuja ação mais alta é poder avaliar os valores.

Um precursor da psicanálise?

Apesar de serem contemporâneos, Nietzsche não tinha como ter conhecido Sigmund Freud, inventor da Psicanálise, até o último ano de lucidez de Nietzsche, Freud não havia publicado nada ainda no campo da psicologia.

Por outro lado, muitos historiadores da psicanálise, dentre eles, Enest Jones e Didier Anzieu apontam a impossibilidade de Freud não ter conhecido a ideias nietzschianas que já eram muito debatidas pelos intelectuais de Viena do início do século XX, sem falar nos mais de 20 anos de amizade entre Freud e Lou Andreas-Salomé que foi muito próxima de Nietzsche. Porque Freud se calou sobre Nietzsche ninguém poderá saber ao certo.

Único fato evidente é a de que muitos psicoterapeutas e psicanalistas até hoje se inspiram nas ideias filosóficas concebidas por Nietzsche. Se há de fato uma terapêutica nietzschiana ela foi concebida em seu sentido mais amplo e que visava tratar a humanidade do que Nietzsche considerava seu maior mal: o niilismo[3] – a morte de Deus, proclamada na modernidade e a consequente crise de valores, abre espaço para o surgimento do homem racional, aquele que não acredita em nada mais do que sua metafísica científica possa provar, os valores não vinham mais dos céus, ao contrário eram humanos, demasiado humanos – se Nietzsche ao dizer que filosofava a golpes de martelo, reverenciava a destruição, esta era concebida apenas como uma etapa no processo de criação, um processo que não é tranqüilo, pois ele mesmo considerava a dificuldade em suportar o sofrimento que uma verdade dispara, contundo sabia da importância do sofrimento para libertar o homem: “o que não me mata torna-me mais forte”, dizia.

Se foi Freud quem abalou a exclusividade do estudo da Consciência, ao demonstrar que ela é lugar de erro com sua formulação do Inconsciente como lugar com leis próprias, não sujeito a temporalidade e onde os contrários convivem pacificamente, sendo a psicanálise um método para conhecer essas leis. Foi Nietzsche quem primeiro denunciou a racionalidade como um projeto para: “disciplinar e controlar o devir das forças, criando uma metafísica e uma moral capazes de esconjurar a presença do caos e de fazer o mundo assentar-se sobre bases firmes. Em suma, de substituir a aventura e o risco pela previsibilidade racional.” (Naffah Neto, 1997 p.44).

Sabe-se da avidez de Freud por ser reconhecido como um cientista importante, desde a mocidade ansiava por fazer uma grande descoberta e talvez reconhecer nos textos nietzschianos o trabalho de sua vida fosse um grande golpe a sua pretensa originalidade.

Para Naffah Neto (1997) é importante:

Trazer Nietzsche para o interior do campo psicanalítico pode significar usá-lo como critério seletivo para descobrir, textualmente, o melhor dos Freuds: o mais criativo, o mais potente, o mais crítico, o que conseguiu olhar mais longe. Ou para detectar qual Freud é absorvido e digerido por Melanie Klein, por Bion ou por Lacan e a que valores servem tais transformações. Ou para avaliar as guinadas que provoca Winnicott e em que direções.[…] As conseqüências de uma depuração crítica da psicanálise são bastante preciosas no nível da clínica: trata-se, nada mais nada menos, de saber que tipo de homem queremos ajudar a construir, se um que seja criador de valores ou meramente reprodutor. (p.50)

Nietzsche colocou diversas vezes seu discurso ao nível da patologia, frequentemente usa a máscara da loucura para escrever, como “A Gaia Ciência” é o louco quem anuncia a morte de Deus, em “Ecce Homo” os capítulos são dispostos a partir da megalomania, se olhados do ponto de vista da psicopatologia, escreve: “Porque sou tão sábio?” ou” Porque escrevo livros tão bons?”. Mais uma vez homem e estilo são indissociáveis. “Para ele, nem saúde nem doença são entidades; a fisiologia e a patologia são uma única coisa; as oposições entre bem e mal, verdadeiro e falso, doença e saúde são apenas jogos de superfície[…]” (Ferez, 2005 p.15).

Por essa razão seu estado derradeiro estado de confusão mental seja senão, a cristalização daquilo que sempre esteve sob seu controle, como diz Naffah Neto (1997), ao ter utilizado frequentemente a máscara da loucura, pode ser que esta lhe tenha pegado na cara.

Uma Ética?

No inicio lá estava o homem desprotegido, cansado das noites de terror nas cavernas aonde predadores vinham servir-se de sua carne, fatigado dos dias quentes do verão, da freqüente falta do que comer, conceber a crença em um mundo isento de ameaças e de perigos o impulsiona a inventar a verdade. Em comunhão com a natureza a verdade estava no fogo que afasta predadores, no rio que refresca e alimenta, mais tarde, um homem diz que há uma verdade oculta na natureza, o homem metafísico desperta.

A verdade não está mais na natureza, está oculta crer em um poder superior, numa vontade divina que organiza o mundo o conduz a um permanente estado de mortificação em vida, se a felicidade prometida está no além, o homem se resigna e maldiz o seu destino na terra que é sofrer.

Quando o homem se conscientiza de que dispõe de todos os meios possíveis para realizar tudo aquilo que seus ancestrais desejavam. O homem científico toma o lugar deixado pela morte de Deus. Esse homem científico orgulhoso principalmente de sua tecnologia, não precisa de Deus, crê em sua própria onipotência, por isso é o mais difícil de convencer sobre o que se passa a sua volta.

Zaratustra o denuncia como o mais baixo ser humano, o que despreza a diferença e festeja a mediocridade. Ao constatar a morte de Deus e, portanto a crise dos valores que nos perturba, Nietzsche nos coloca responsáveis por esse estado de coisas. Segundo Giacoia Júnior:

Por essa razão, Nietzsche dedicou sua vida a realizar três tarefas principais: compreender a lógica desse movimento contraditório ao longo do qual o progresso do conhecimento leva á perda de consistência dos valores absolutos; a partir daí, denunciar todas as formas de mistificação pelas quais o homem moderno oblitera sua visão dos perigos de sua condição; por fim, destruídos os falsos ídolos — e esses são os valores mais venerados pelo homem moderno — assumir corajosamente o risco de pensar novos valores, abrir novos horizontes para a experiência humana na história. (2000, p.9-10)

Nietzsche despreza as muletas com as quais nos apoiamos ao longo da vida, bebidas, drogas e as doutrinas religiosas são falsas soluções, pois conduzem a conformação e a mortificação. Para Nietzsche esses são artifícios que não ajudam, mas impedem a superação do sofrimento.

Evitar o sofrimento tornou-se o grande motor da vida do homem moderno, acredita-se que ser belo facilita a relações sociais, ter um carro último modelo desperta admiração, uma casa grande traz a sensação de conforto. Assim, o homem racional é levado a crer que a felicidade está fora dele, nos objetos que possui, sem os quais não tem valor algum. Segundo Nietzsche o homem foi amesquinhado, condenado a buscar a satisfação de um desejo sempre carente de um objeto. É um homem impotente que Nietzsche enxerga, é impotente para sofrer e impotente para tirar de seu sofrimento algo belo, é fraco e submisso.

Aqueles que ousam refletir perceberão gradualmente que a felicidade prometida nunca chega, seu cansaço aumenta, até o ponto em que reflete… afinal, desejar para quê? Saturado de objetos, perdido entre possibilidades de escolhas e por isso não mais feliz, sem Deus, a existência parece sem valor, ao olhar para o horizonte o homem niilista não vê nada.

A vida é sem sentido – diz o “último homem”, o mais desprezível. Incapaz de perceber que é exatamente esse sem sentido da existência que oferece a possibilidade de abertura para que o homem possa exercer sua força.

Nietzsche nos fala da urgência de superar esse estado de impotência, o que nos levaria a sermos os poetas de nossa própria vida, isso equivale a fazer da angústia e da dificuldade uma coisa bela, como o artista que molda o barro disforme. O sujeito não existe com uma identidade prévia desde seu nascimento, é criado pelo próprio sujeito a cada momento, a partir de cada acontecimento bom e ruim é por isso também uma criação provisória, pois está sendo constantemente recriado, por isso é tão ficcional quanto qualquer história já escrita. Nesse sentido, pode ser entendida a frase de Nietzsche “Torna-te quem és”, pois para ele o homem é um eterno vir-a-ser.

Se não há metas, nem modelos, nem ideais onde se espelhar cada homem como inventor de si próprio tem na experimentação sua principal diretriz, nesse processo se singulariza, afirmando sua diferença, faz de seu destino trágico algo único, livre e por isso mesmo incomparável, só assim nos tornamos os únicos responsáveis por nossas ações, pois já não há culpados, não há ninguém para recorrer a não ser a nós mesmos. Que venha o além-do-homem!

E assim falou Nietzsche

Em contraposição ao último homem, massificado e medíocre dos tempos modernos, Nietzsche nos fala do além-do-homem:

Eu vos ensino o além-do-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que tendes feito para superá-lo? Todos os seres até agora criaram algo acima deles próprios: quereis vós ser o refluxo dessa grande maré e retroceder ao animal, ao invés de superar o homem? Que é o macaco para o homem? Uma zombaria e uma dolorosa vergonha. E justamente isso é o que o homem deve ser para o além-do-homem: uma zombaria e uma dolorosa vergonha. O homem é uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem — uma corda sobre o abismo. Um perigoso passar para o outro lado, um perigoso caminhar, um perigoso olhar para trás, um perigoso estremecer e parar. A grandeza do homem está em ser ele uma ponte, e não um fim: o que se pode amar no homem é que ele é uma passagem e um crepúsculo. (NIETZSCHE, 1884, Assim falou Zaratustra p.14-16.)

Para que o além-do-homem possa vir à tona o homem deve fazer uso da Vontade, único meio capaz de romper os grilhões que o aprisionam a moral racionalista que o condena a se sacrificar, a odiar a vida e se superar para se tornar aquilo que é sua verdadeira vocação: ser ele mesmo. Desfazendo-se do moralismo, o homem pode descobrir-se e perceber o mundo não como lugar de sofrimento, mas como lugar de possibilidade de superação.

O além-do-homem agradece o presente maravilhoso que é uma vida sem sentido, pois se houvesse um sentido para a existência humana nada mais precisaria ser criado. Se não há uma meta, nem um período em que se chegaria ao fim da história, ao ápice da civilização, há apenas um único sentido eterno que é vida sem sentido! A isso Nietzsche chamou de Eterno Retorno:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retomar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’- Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!’

Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’, pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? (NIETZSCHE, 1888, Gaia Ciência. IV, 341)

O eterno retorno de uma vida sem sentido nos obriga a criarmos no aqui e agora um sentido e valor para nossa existência. Com isso Nietzsche nos coage a pensar: será que somos tão infelizes na terra que ansiamos a uma vida eterna no além? O eterno retorno é o imperativo ético que nos obriga a refletirmos sobre nossas escolhas e a nos responsabilizarmos por ela para poder agir de modo que as mais ínfimas ações queiram ser repetidas eternamente de maneira a dar a existência os contornos de obra de arte, isso retira da morte sua tristeza e lhe confere o status de consumação: “[…] O eterno retorno é a lição que imprime ao instante o selo da eternidade.” (Giacoia Júnior, 2000, p.35).

Aqueles que persistiram, nosso atalho termina por aqui, fizemos uma curta excursão e vislumbramos outras passagens ao longo do trajeto, a partir de então aquele que é forte deve se embrenhar por conta própria nos emaranhados caminhos da filosofia de Frederich Nietzsche, um ser humano autentico, um exemplo de pensador independente que realmente viveu o que escrevia o que pensava sem se importar com fama, nem esperar qualquer tipo de sucesso ou aceitação. Seu legado continua e continuará a reverberar pelos séculos, seu destino desde sempre foi o de morrer de imortalidade.

Depois de haver-me descoberto, não significa grande coisa encontrar-me: o difícil, agora, é perder-me.

(Nietzsche)

NOTAS

[1] Ferez, O. C. Nietzsche: Vida e Obra. In: Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2005.

[2] Foucault, M. Nietzsche, Freud, Marx. In: Arqueologia das ciencias e história dos sistemas de pensamentos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.p.40-55.

[3] “O niilismo seria o sentimento coletivo de que nossos sistemas tradicionais de valoração, tanto no plano do conhecimento, quanto no ético-religioso, ou sociopolítico, ficaram sem consistência e já não podem mais atuar como instâncias doadoras de sentido e fundamento para o conhecimento e a ação.” (Giacoia Júnior, 2000, p. 39)

REFERÊNCIAS:

GIACOIA JÚNIOR, O. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.

NAFFAH NETO, A. Nietzsche e a Psicanálise. Cadernos Nietzsche 2, p. 41-53, 1997.

FEREZ, O. C. Nietzsche: Vida e Obra. In: Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2005.

Tiras: http://www.umsabadoqualquer.com/

Principais Obras:

(click na imagem para baixar)

1871 – O Nascimento da Tragédia/ A origem da tragédia

1884 – Assim falou Zaratustra

1886 – Para Além do Bem e Mal

                                               

1888 – O Anticristo

1888 – Ecce Homo

PARA SABER MAIS:

GEN – Grupo de Estudos Nietzsche: http://www.fflch.usp.br/df/gen/index_port.html.

Especial sobre Nietzsche – do portal Terra Networks seção Educação: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/especial/home_nietzsche.htm

Filmes:

 Dias de Nietzsche em Turim. Filme brasileiro de 2001, dirigido por Júlio Bressane. É uma recriação do período em que Nietzsche passou pela cidade italiana entre 1888 e 1889, foi lá que escreveu “Ecce Homo” e “Crepúsculo do Ídolos”.

 Quando Nietzche chorou. Filme de 2007, baseado no romance de Irvin D. Yalom. Se trata do encontro fictício entre o filósofo e Josef Breuer que na época (1882) estava envolvido no desenvolvimento do método cartático com Sigmund Freud, nos primórdios da Psicnálise.

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