A voz do povo…

No dia 25 de janeiro de 2012 a Folha de São Paulo publicou reportagem sobre pesquisa realizada pelo datafolha em todas as regiões do país a respeito da internação involuntária dos usuários de crack.

Segundo a pesquisa 90% das 2.575 pessoas ouvidas responderam afirmativamente a seguinte questão: “Um adulto dependente de crack deveria ser internado para tratar seu vício mesmo contra a vontade?”

O tema ganha relevância a partir da atuação repressiva realizada pelo governo estadual contra Os usuários de crack na região central da cidade de São Paulo que ocorre desde o início do ano.

Primeiro como farsa, depois como tragédia…

Tratar ‘problemas sociais’ que são gerados pela dinâmica de desenvolvimento do próprio sistema socioeconômico com repressão policial não é novo. Desde o início das revoluções capitalistas as classes marginais, isto é, o grupo de sujeitos considerados não-adequados para exploração de mão-de-obra, como por exemplo, o ‘tratamento’ ofertado aos loucos desde o século XVIII, submetidos ao encarceramento asilar, discutido por Foucault em 1961 em a “História da loucura”.

O surgimento do capitalismo também marca o nascimento da classe assalariada urbana, produtora de riqueza, mas impedida de ter acesso ao controle dos meios de produção. As péssimas condições de vida e trabalho são retratadas de forma realista no filme de Claude Berri “O Germinal” de 1993 (baseado no romance homônimo de Émile Zola, escrito em 1885). A segregação e a opressão pela força policial somam-se a outra forma de dominação: o saber que classifica, diagnostica e rotula as condições de vida dessa parcela da população como forma de uma classe servir-se do estigma produzido pelo discurso douto para perpetuar a dominação numa sociedade hierarquizada.

Policiais ocupam Rua Helvétia, que foi tomada por viciados (Foto: Nilton Fukuda – Agência Estado) Retirada de: http://news.midiafree.com/noticias-atualizadas/sua-regiao/sao-paulo/promotoria-vai-ouvir-envolvidos-em-operacao-na-cracolandia/

Com a humanização do tratamento dirigido ao doente mental e a relativa aceitação do modo de exploração capitalista, o alvo do saber-poder tem se voltado para os usuários de drogas. Temos então um retorno na cena social daquilo que não quer deixar-se dominar e os mesmos mecanismos de controle de outrora, sendo novamente empregados.

A hegemonia do saber-poder que legitima um discurso de segregação, disciplinamento e controle dos sujeitos encontra nas práticas institucionais suas principais estratégias para o enfrentamento dos efeitos gerados a partir da existência das contradições sociais.

Clavreul destaca em “A ordem médica” a hegemonia do discurso médico na sociedade que se revela como uma das facetas constituintes da ideologia dominante. O que podemos constatar, a partir do resultado da pesquisa do Datafolha é a assimilação desse discurso pela maioria da população.

O quarto poder

O número de pessoas que concordam com a internação compulsória é bastante sugestivo, se comparado com outro resultado da pesquisa. Segundo o datafolha 91% das pessoas questionadas não tem nenhum familiar ou conhecido que é usuário de crack.

Na difusão de um discurso que compõe a ideologia, os sistemas de comunicação são ostensivamente utilizados. Os veículos de comunicação de massa que se fortaleceram ao consagrar uma forma de comunicação unilateral contribuem para conformação do pensamento quase unânime da população pesquisada. Por meio de telenovelas, programas, filmes e noticiários, dentre outros dispositivos que nunca são neutros, mas que ao contrário são partidários na forma de expressar uma situação, que são seletivos quanto às mensagens e informações veiculadas, e autoritário quanto à prescrição de condutas de comportamento é que tornam mais sólidas a sustentação da hegemonia do saber-poder.

A fraqueza alimenta a força…

Como seriam as respostas das pessoas pesquisadas se soubessem que a atuação truculenta da força policial e a conseqüente privação da liberdade dos usuários de crack não são capazes de resolver contradições gestadas na dinâmica da sociedade.

Se a falácia em prol da democracia e do acesso a informação deixasse de ser apenas um discurso e tivesse lugar na existência real, no cotidiano dos cidadãos, certamente as pessoas pesquisadas teriam a consciência de que ao confirmar o modelo de segregação elas colocam em risco sua própria liberdade como cidadãos. Apostar nas instituições restritivas, comunidades terapêuticas entre outros sistemas de tratamento de mesmo modelo restritivo é deixar brecha para ação de um saber-poder autoritário que viola direitos em nome de um suposto bem do outro.

O escritor José Saramago (1922-2010) disse certa vez mais ou menos o seguinte: O disparate mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade. Milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela história, pessoas que não possuíam mais que suas simples vida, para elas lhe servia pouco, mas nunca faltou quem de tais miudezas não tivesse sabido aproveitar. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza.

Suspeita-se que ação contra usuários de drogas, orquestrada pelo Estado, tenha sido menos uma ação de saúde pública do que uma dispersão de um grupo indesejado de pessoas que dificultavam a valorização dos imóveis para o mercado imobiliário.

Referências:

90% apoiam internação involuntária de viciados. Reportagem de Vaguinaldo Marinheiro. In: Folha de S. Paulo/ Cotidiano. C1. Ano 91. nº30.247 de 25 de Janeiro de 2012.

Moradores de 27 bairros reclamam de migração de usuários. Reportagem do Jornal da tarde por Camilla Haddad e Tiago Dantas. In: O Estado de São Paulo Cidade/ Metrópole. C7. Ano 133. Nº43201. 28 de Janeiro de 2012.

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