Da desobediência como dever moral

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Erich Fromm 1900-1980

Erich Fromm foi um psicanalista, sociólogo e filósofo alemão. É considerado um dos pioneiros na tentativa de uma síntese entre o marxismo e a teoria psicanalítica. Viveu em meio aos dois maiores conflitos bélicos da história humana, o que de certa forma, contribuiu para sua concepção de indivíduo e de sociedade. Sua experiência de vida em meio a duas grandes guerras deixou transparecer em sua obra a descrença em valores até então inquestionáveis para o homem moderno. Em “Da desobediência e outros ensaios” de 1984, é evidente sua crítica aos valores modernos, assim como a necessidade em reinventar um futuro que seja diferente do que prenunciou no texto “A desobediência como problema psicológico e moral” que comento a seguir.

Nos dois grandes mitos encontrados nas tradições grega e hebraica, das quais somos herdeiros, o surgimento da civilização é a consequencia de um ato de “desobediência” e os “desobedientes” sofrem punições terríveis pela “má conduta”.

No mito grego Prometeu é o responsável por trazer ao homem o fogo, que permite o domínio da natureza, uma prerrogativa apenas dos deuses que habitam o Olimpo, contra a vontade divina Prometeu contribui para o surgimento da civilização. No mito hebraico Adão e Eva desobedecem a Deus e provam o fruto proibido da árvore do conhecimento, no Jardim do Éden. Em decorrência dessa má conduta, nos dois mitos os protagonistas são punidos. Prometeu é acorrentado a uma rocha e todas as manhãs uma águia se alimenta de suas vísceras, à noite seu estado é restaurado para que na próxima manhã sua tortura recomece. O castigo de Adão e Eva não menos terrível, consiste no banimento do paraíso e um exílio permanente na terra de onde estarão sujeitos a falta e devem tirar dela seu provimento, assim como seus futuros herdeiros. A moral transmitida em ambos os mitos sugere que a obediência é uma virtude e a desobediência um mal, passível de punição para que não seja cultivado.

Para Erich Fromm a obediência pode ser heterônoma ou autônoma, em que, a primeira se refere à obediência a uma instituição ou poder, obrigando o sujeito a abdicar de suas próprias ideias e aceitar as ideias de outros. A obediência a própria razão consiste na obediência autônoma, se trata da afirmação própria do sujeito. Fromm ainda qualifica essa distinção adicionando os conceitos de consciência e autoridade. Sobre o conceito de consciência Fromm destaca dois eventos, um deles é a ‘consciência autoritária’, que é a voz internalizada de uma autoridade que ansiamos agradar e tememos desagradar, aquilo que o discurso analítico chama ‘supereu’.

A consciência autoritária é sempre uma obediência a ordens externas ao sujeito, é capaz de confundir-se com a ‘consciência humanista’ (a voz intuitiva do sujeito que lhe confere humanidade). Isso acontece devido a uma ilusão creditada por Fromm ao fato da ideia externa ter sido internalizada pelo sujeito que acredita estar seguindo os conceitos de sua própria consciência (humanista), esta ao contrário, torna-se cada vez mais debilitada.

A segurança da obediência

Prometheus brings fire to mankind – Heinrich Fueger, 1817

A obediência pode ser considerada ‘racional’ e ‘ irracional’. Ambas se baseiam no fato de que a autoridade da pessoa que comanda é aceita. A ‘obediência racional’ consiste em: tanto o lado que comanda, como o que obedece, visa o mesmo objetivo, não há conflito de interesses, o que não acontece na ‘obediência irracional’ em que os interesses dos dois lados são opostos, pois o que comanda tira vantagem sobre a condição submissa do outro. A autoridade irracional usa a força ou a sugestão como meio de manter a relação dominadora sobre a parte submissa.

A obediência como valor moral tem duas conseqüências: a primeira se refere a dificuldade de se desobedecer as ideias dominantes. A obediência a um poder seja do Estado, da Igreja ou da Opinião Pública, confere ao sujeito o sentimento de segurança e uma sensação de proteção, tornando-se apenas mais um entre tantos que obedecem as mesmas ordens. Uma segunda conseqüência da obediência é tornar o sujeito parte do poder ao qual se submete e, por conseguinte sente-se forte. A vantagem obtida dessa relação é a possibilidade de transferência de problemas e angústias ao dominador, porque este decide pelo sujeito.

“O grande perigo para o mundo moderno é a facilidade das pessoas em aceitar as idéias gerais que pairam a nossa volta. Elas são tão influentes na vida das pessoas, que são repetidas sem análise, irrefletidamente, por pessoas que não sabem o que realmente querem dizer com elas.”

(David Livingstone)

Fromm nos diz que uma pessoa pode tornar-se livre através de atos de desobediência, simplesmente aprendendo a dizer não as idéias dominantes. Todavia, a liberdade é condição para a desobediência, se o sujeito tem medo da liberdade não pode ter a coragem de desobedecer. Liberdade e capacidade de desobedecer são inseparáveis, pode-se então constatar que qualquer modelo de sistema social, político, econômico ou religioso que pretende basear-se na liberdade, não pode jamais excluir a desobediência, nem considerá-la como um mal.

Expulsion from Eden – Benjamin West, 1791

Durante todo o curso da história da civilização humana sempre um grupo minoritário dominou a maioria, uma dominação que Fromm considerava necessária quando não havia recursos que mantivessem um bom padrão de vida para todos e o medo de invasores era constante. Nesse período caso a minoria poderosa quisesse manter seu status precisaria fazer com que a maioria produzisse riqueza, para isso então a maioria da população teria que aprender a obedecer. Desenvolve-se uma tensão constante entre classes. De um lado utiliza-se a força para manutenção de um status dominador, de outro se instala um medo constante da maioria tomar o poder pela força, eis a mecânica das lutas de classe descritas pelo marxismo. Fromm nos diz que a obediência baseada somente no medo da força está fadada ao fracasso.

Atualmente um dos recursos ao uso da força para manutenção da obediência consiste na idéia de que o homem deve querer precisar obedecer, para tanto o poder assume as qualidades de ‘Suprema Benevolência’ e da ‘Suprema Sabedoria’, tornando-se onisciente. Quando isso acontece o poder dominante pode, enfim, proclamar que a desobediência é um mal e a obediência uma virtude.

Para concluir seu texto, Fromm pondera que o homem contemporâneo perdeu a capacidade de desobedecer e não tem consciência de que obedece. Nesse ponto da história está atrofiada sua capacidade de duvidar, de criticar e de desobedecer. Ao contrário dos mitos sobre o início da civilização, o fim da humanidade estaria relacionado à obediência irracional a um sistema ideológico, desobedecer nesse caso, torna-se talvez, um ato em favor do futuro da espécie humana.

Referência:

FROMM E. A desobediência como problema psicológico e moral. In:Da desobediência e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984.

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