Melancholia: Uma parábola para pós-modernidade

melancholia_ver4A partir da intensificação do desenvolvimento tecnológico nas últimas cinco décadas, promovida pelo capitalismo liberal, a técnica é hoje considerada um fim em si mesma. Passamos a viver como convidados de uma grande festa, cujo único objetivo é a diversão irrestrita, hoje temos a impressão de que quase tudo é possível. Para isso os recursos tecnológicos estão a nossa disposição, seja para alterar a percepção que temos das coisas, das pessoas ou sobre nós mesmos. O objetivo é alcançar um estado de felicidade permanente e constante. Só que por mais que tentemos, por algum motivo não a alcançamos. A relação com os outros quase sempre é frustrada, pois todos estão da mesma forma perseguindo sua própria miragem da felicidade. Alguns aparentam ter conseguido e tentam de todas as formas demonstrar isso, para ser admirado, invejado e servir de modelo aos outros “vejam ela conseguiu…”

É assim que mais ou menos se encontra Justine (Kirsten Dunst) no filme de Lars Von Trier, Melancholia (2011). A protagonista é uma jovem belíssima que acaba de se casar com seu príncipe encantado, tem um emprego excelente em uma empresa de publicidade e acaba de ser promovida, tem uma família bastante numerosa, amigos… Porém Justine não se sente realmente feliz. Na sua festa de casamento tudo está organizado como deveria ser, por isso Justine se culpa, sabe que deveria estar feliz para corresponder aquilo que os outros esperam dela, deve seguir o roteiro, mas não consegue. Em um dado momento seu comportamento é prejudicial, como um “defeito na matrix”, que revela que apesar de tudo estar bem organizado algo não está certo, pois denuncia a farsa da felicidade.

O comportamento de Justine aos poucos contraria um velho pensamento da lógica que acredita que o ser humano deve domar sua natureza em favor da razão, assim toma-se o sujeito por algo fora da natureza que tem dominância absoluta sobre suas ações e que não é determinado por nada mais que sua vontade consciente.

Esse, aliás, é um tema recorrente na obra de Von Trier. Em Dogville (2003) e Manderlay (2005), a bela Grace é o elemento perturbador que revela o que há de pior nas comunidades por onde passa. Em o Anticristo (2009) é o caos inerente ao ser humano que desencadeia as mais desesperadoras situações. Talvez Von Trier tente a todo o momento elaborar em suas obras algo que é caracteristicamente seu e que o faz ser uma mosca na sopa, como a atitude que o fez, por exemplo, ser considerado persona non grata no festival de cinema de Cannes. Assim como Justine em seu filme ele é o elemento disfuncional do cinema contemporâneo.

Desde a instauração da racionalidade como dominante a constituição de nossa subjetividade obedece a uma lógica da postergação da felicidade. Diz-se as crianças para fazerem isto e aquilo, desta ou daquela forma para então ser feliz. Quando adultos, participamos todos de uma tradição cuja lógica é mistificadora porque estimula e exige certos comportamentos virtuosos para que a felicidade possa existir: seja um bom pai, bom marido e bom empregado que você será recompensado! O homem bom é aquele que age em concordância com o bom modelo, porque assim lhe exige a razão. Para isso contam-se histórias cujo objetivo é fixar esse modelo de normas e valores virtuosos e viciosos.

O filme de Von Trier parece começar a partir do ponto em que a maiorias das histórias que nos são contadas terminam. Quando a heroína, após sofrer um bocado encontra seu par perfeito e se salva da escassez financeira, segue-se o: “(…) e foram felizes para sempre”. Algum lugar idílico que reina a felicidade eterna.

melancholia_ver8Em mim ressoa uma ordem:
Cava! Que vês?
Homens e pássaros, pedras e flores.
Cava mais, que vês?
Idéias e sonhos, clarões, fantasmas…
Cava mais ainda! Que vês?
Nada. Uma noite densa, muda, surda como a morte.
Deve ser a morte.
Cava um pouco mais!
Ah! Não consigo penetrar mais a muralha negra!
Ouço gritos e prantos, ouço frêmitos de asas que vêm de outra margem!
Não chores, não chores, não vêm da outra margem!
Os gritos, os prantos, e as asas… vêm do teu próprio coração!”

Kazantzakis

No decorrer de uma noite Justine passa por aquilo que a maior parte das pessoas percebe depois de passados anos ou décadas. É pelo amanhecer que ela percebe que não amava seu esposo como havia contado para si mesma, nem seria feliz na empresa, mesmo recém promovida. Percebe que não gostaria de morar na propriedade que o noivo lhe havia presenteado. Ao contrário das pessoas comuns, Justine recusa-se a continuar com a farsa da felicidade, ela provoca uma ruptura com a imagem de uma vida perfeita, bela e paga um preço por isso, porque a ruptura traumática a coloca frente ao não previsível. Ao jogar tudo para o alto, Justine se depara com o nada, com o vazio de existir. Talvez essa seja a condição do sujeito no mundo contemporâneo. O lugar da felicidade como destino é a única coisa que se permite a o sujeito, em razão dela deve sacrificar sua vida e fora dela não consegue perceber mais nada. O lugar da felicidade é preenchido com diversos significados, a partir do recurso a técnica, pode ser um corpo perfeito, uma viagem dos sonhos, uma casa… Etc. Fora desse lugar não existe qualquer outra possibilidade que dê sentido a vida. É mais ou menos isso que Von Trier nos diz através de Justine.

Quero ignorado, e calmomelancholia_ver5
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.

(Quero ignorado – Fernando Pessoa)

É curioso que mesmo dispondo de inúmeras possibilidades de comunicação que o mundo contemporâneo permite, Justine é incapaz de estabelecer uma comunicação satisfatória com as pessoas mais próximas dela, tanto seu pai como sua mãe permanecem alheios as suas tentativas de contato. Mesmo cercada de pessoas ela se sente solitária, é bem capaz que as pessoas a sua volta também sintam o mesmo que Justine, mas como estão preocupadas em demonstrar uma face feliz acabam ocultando seus sentimentos.

No decorrer do filme o que era considerado doente ou denunciador da farsa da felicidade, torna-se a saúde em pessoa, mas não é um modelo de conduta. Isso porque Justine encontrou aquilo que só ela poderia encontrar. Um duplo da personagem principal é Claire (Charlotte Gainsbourg) a irmã de Justine que é organizada e previsível. Tem tudo o que Justine deveria ter é seguidora dos ritos sociais, não demonstra infelicidade sua segurança é sustentada pela mentira de seu esposo John (Kiefer Sutherland) a respeito do planeta. Como a maior parte de nós Claire persegue a felicidade, por isso não suporta a idéia de que a vida terminará em breve, como sua vida pode acabar se ainda não alcançou a felicidade? Seu esposo, o patrocinador da felicidade, acredita na ciência, na técnica e na previsibilidade da natureza, que só existe para que o homem goze ao máximo.

Um sábio perguntava a um louco qual era o caminho da felicidade. O louco respondeu-lhe imediatamente, como alguém a quem se pergunta o caminho da cidade vizinha: «Admira-te a ti mesmo e vive na rua». «Alto lá», exclamou o sábio, «pedes demais, basta já que nos admiremos!» E o louco respondeu logo: «Mas como admirar sem cessar se não nos desprezarmos constantemente?»
(Friedrich Nietzsche. O Caminho da Felicidade. In: “A Gaia Ciência”)

melancholia_ver6Acredito que Justine encontra sua paz e mesmo sua própria forma de felicidade quando o sentido da vida se materializa no planeta em rota de colisão com a Terra, acalma-se, pois percebe que o fim é inevitável de uma forma ou de outra e que a única forma que podemos enfrentá-la é juntando restos que deixamos pelo caminho. Quando a destruição é inevitável a mais segura fortaleza é insuficiente. Ela só sabe disso por que pode derrubar a fortaleza que construíram para ela, e que ela percebeu que não era mais eficaz que um punhado de gravetos encostados uns sobre os outros. No final ela sabia o que era melhor para sua vida: “… Eu sei das coisas. Eu sempre soube…”, diz ela para irmã a certa altura. No fim Justine pode enfrentar seu destino com tranquilidade e transmiti-la aos outros, num dos finais mais belos que o cinema pode produzir.

A nós cabe a reflexão por analogia, como se um planeta que parece estar vindo em nossa direção para colidir com toda a certeza que tínhamos do mundo até então. Será que nos agarraremos a pretensão da tecnologia em prever e modificar o mundo? Deixaremos-nos entorpecer ainda por essa última grande ideologia? Iremos para o jardim tomar vinho e continuar a dançar como temos feito? Ou podemos ir para a floresta e juntar gravetos para tentar construir algo? Temos de pensar em alternativas, pois as velhas fortalezas são incapazes de nos proteger do que vem pela frente.

Referência:

Melancholia – 2011

Diretor: Lars von Trier. Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård, Brady Corbet, Stellan Skarsgård. Produção: Meta Louise Foldager, Louise Vesth. Roteiro: Lars von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Duração: 136 min. País: Alemanha/ Dinamarca/ França/ Itália/ Suécia. Gênero: Drama. Distribuidora: Califórnia Filmes. Estúdio: Zentropa Entertainments / Memfis Film / Slot Machine / Zentropa International Köln / BIM Distribuzione / Trollhättan Film AB.

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